terça-feira, 3 de julho de 2007

A Brocante 1900


Quando cheguei aqui na Europa uma coisa que não conseguia entender era a paixão das pessoas pelas brocantes. Quando eu via todas aquelas pessoas comprando aquelas "coisas velhas", pensava que eles queriam apenas fazer economia comprando de segunda mão para não ter que pagar o preço das novas. Porque tem as antiguidades, e tem também as coisas velhas mesmo, pois "vide-grenier" (esvazia celeiro), quer dizer aquelas roupas que não queremos mais, louças usadas, livros, discos, cartões postais, moedas antigas, velhos cartazes de filme, enfim tudo que se possa imaginar e de qualquer época.

Comecei a entender o espírito dessas feiras quando conheci minha amiga Aline. Ela, sua paixão são as brocantes. Durante a temporada destas, seus fins de semana são dedicados a percorrer as estradas simplesmente para visitá-las nos vilarejos da região, ou também para expor e vender. Ela me mostrou com orgulho sua casa, cheia de objetos antigos comprados em brocantes e restaurados, o que faz um bonito contraste com o "loft" ultramoderno onde ela mora.

Aline me explicou também que para comprar nas brocantes existe todo um ritual. Primeiro mandamento, você tem que chegar bem cedo, os "entendidos", como é o caso dos colecionadores passam bem cedinho à procura das "pérolas raras" que faltam em suas coleções. Segundo, você tem que pechinchar...não se deve nunca pagar o primeiro preço proposto pelo vendedor. E terceiro deve-se garimpar, "fuçar" em tudo, pois aquela jovenzinha que vende a tranqueira que ela achou no celeiro da avó, pode estar vendendo objetos preciosíssimos sem saber. Foi assim que ela comprou um jogo de facas por uma bagatela, que após avaliação descobriu que eram de Majorelle (logo valiam uma fortuna), e que estavam em um um canto no meio de um monte de gibis velhos. E por falar de gibis, ela achou também uma edição histórica do Tintin, que estava misturada a outros sem maior interesse.

Pois domingo passado foi a brocante do Parc Sainte-Marie, a maior de Nancy. Ela se chama "Brocante 1900", porque neste parque foi realizada a exposição universal de 1909, e ele, assim como todo o bairro, data desta época, na qual a cidade conheceu o seu apogeu cultural com a "art nouveau". Este ano, como o tempo estava feio e chuvoso, pensei que não teria muita gente. Puro engano, foi a maior dificuldade para se aproximar das barraquinhas. Levei pouco dinheiro, não levei talão de cheques, assim é mais facil resistir à tentação. Comprei somente um lampiãozinho a óleo para enfeitar meu banheiro...custava 1 euro, tão barato que nem precisei pechinchar. Voltei para casa super contente com a minha compra.

Hoje vejo as brocantes com um outro olhar. Além da parte lúdica do "garimpo" de coisas interessantes, da possibilidade de achar coisas boas e baratas de segunda mão, tem também o lado "reciclagem". Talvez este não seja o principal objetivo das pessoas que vendem, mas nesta nova era de economia de matérias primas, um objeto que não vai para o lixo representa um ganho para o meio ambiente. Acho que fomos a última geração que pôde se dar ao luxo de usar e abusar dos "descartáveis".



23 comentários:

Lina disse...

Olá Maria Augusta,

Aqui no Japão também existem essas "feiras" de antiguidades. Algumas ao ar livre como aí, e também há lojas "recycle", que vende coisas usadas e também vendem antiguidades.
De vez em quando passo nesses lugares para dar uma garibada em algo interessante.
Certa ocasião adquiri um par de espadas japonesas antigas. Estou guardando-as para presentear meu pai.

Adoro vier aqui, aos poucos estou conhecendo um pouco de uma cultura que era muito distante na minha visão.

Beijos e uma boa semana.

Eduardo P.L. disse...

Maria Augusta, eu ao contrário gostava de ver e (poucas vezes) comprar nessas feirinhas. Tomei uma aversão por elas, que não sei te explicar. Acho que é falta de espaço. Junto tantas coisas, de tão variadas fontes, que essas velharias não me comovem mais.
Quanto aos descartáveis, sei não...

Meire disse...

Maria Augusta seria o fmaoso mercado das pulgas?

Laura disse...

menina, eu não posso nem pensar em adquirir nada, vivo num apê pequenino :)
bjs Laura

luma disse...

Aqui começa o pessoal a se interessar por antiguidades. Pra mim, encontrar um gibi antigo de tintin já é tudo! Recentemente descobriram os primeiros desenhos na Alemanha, viu sobre isso? Quem sabe a sua amiga está com uma preciosidade nas mãos e não sabe.
Eu tenho verdadeira paixão por jóias antigas. Mas são caras! bah!
Beijus, Luma

Maria Augusta disse...

Lina, nestes "velhos países", que viveram tantas guerras, eles não gostam de jogar nada fora. E com isto às vezes a gente acha coisas interessantes nestas feiras, né?
Um beijo grande.

Eduardo, nós fizemos o caminho inverso, você gostava e não gosta mais, eu no início não apreciava e agora aprecio. Quanto aos descartáveis, talvez continuem, mas acho que serão cada vez mais biodegradáveis. Um abração.

Meire, é o mesmo princípio do Mercado das Pulgas, que é em Paris e acontece nos fins de semana sempre no mesmo lugar e o ano todo. Esta brocante que fui domingo só acontece uma vez por ano, no resto do tempo tem outras em outros cantos da cidade ou nas redondezas. Um grande beijo.

Laura, se fosse aqui você poderia ir a uma brocante vender o que não quer mais para abrir espaço para novas aquisições. É assim que faz minha amiga especialista das brocantes, depois ela restaura as coisas, fica tão bonito. E não é por falta de dinheiro, é por paixão mesmo. Um beijão.

Luma, no Brasil gostava de ir nos sebos, garimpar livros antigos. O Tintin todo mundo está falando dele neste ano e achando seus desenhos originais, pois estão festejando o centenário do Hergé, que o criou. Minha amiga deve ter mil preciosidades na mão, a casa dela parece a caverna do Ali Babá. Então você gosta de jóias antigas...gosto caro, hein, moça? Beijão.

Samantha Shiraishi disse...

Maria Augusta, como a Meire, na hora pensei no mercado de pulgas parisiense... hehehe. A ferinha que citei outro dia no blog, que fica no centro histórico de Curitiba tem um quê disto e eu gosto.
Como aquariana, você sabe, não sou de coisas velhas e nostalgias em excesso, mas dou valor à história e à tradição quando fundamentadas em bons sentimentos.
Adorei o post e me deu vontade de ler Tintin, aqui em casa adoramos. Beijos.

Samantha Shiraishi disse...

Maria Augusta, como a Meire, na hora pensei no mercado de pulgas parisiense... hehehe. A ferinha que citei outro dia no blog, que fica no centro histórico de Curitiba tem um quê disto e eu gosto.
Como aquariana, você sabe, não sou de coisas velhas e nostalgias em excesso, mas dou valor à história e à tradição quando fundamentadas em bons sentimentos.
Adorei o post e me deu vontade de ler Tintin, aqui em casa adoramos. Beijos.

Maria Augusta disse...

É como o mercado das pulgas, pode-se comprar de tudo, e tem também uns objetos que a gente nunca viu, precisa perguntar para que serve. Como você disse, as aquarianas tem o olho no futuro, mas o espírito aberto para tudo que é interessante mesmo vindo do passado (quase não sou suspeita para falar, né?) Beijão.

Anônimo disse...

Maria Augusta,
Meus pais são japoneses, e por terem passado por uma guerra, como você comentou, não gostam de jogar nada fora: aproveitam, reciclam...as vezes eles guardam coisas do arco da velha no porão ocupando espaço e tal...e muitas vezes temos que desapegar das coisas, não é não? Atualmente no Japão, por falta de espaço mesmo, coisas ´velhas´ dá lugar ao ´novo´, e olha que com o lixo dá pra montar o apto. aqui hahahahaha...
um gde abraço
Madoka

Maria Augusta disse...

Madoka, verdade que devemos nos desapegar das coisas. E por falar em lixo, quando minha sogra mudou, minha amiga vendeu na brocante quase tudo que íamos jogar no lixo, para estudantes que estavam montando apartamento. É a reciclagem! Um grande abraço.

Samantha Shiraishi disse...

Maria Augusta, minha amiga aquariana, lembrei de outra referência ao tema: no livro Caçador de Pipas, de Khaled Housseini, um sucesso aqui no Brasil, o afefão se volta para esta atividade quando muda para San Francisco, CA.
A analogia é bela porque mostra como o povo exilado pelo Talibã valorizava as tradições e objetos de familia que perderam para sempre.
Beijos.

Maria Augusta disse...

Sam, ouvi falar muito deste livro na blogosfera, mas não sabia qual era o tema. Obrigada pela info, deve ser muito bonito. Beijos.

Lunna disse...

Olha só, eu adoro essas feiras. Já comprei muita coisa usada. Inclusive um livro que trazia uma dedicatória lindissima e que foi escrita por um senhor apaixonado por sua senhora. Até escrevi um conto pensando no que teria acontecido aquele livro.
Abraços

Maria Augusta disse...

Lunna, também adoro comprar livro "usado", imagino um com uma dedicatória assim. Deve ter dado um lindo conto, conhecendo teu talento de escritora. Um beijão.

luma disse...

Esse gosto por jóias antigas é antigo! (rs*) Meu pai já gostava! Bom fim de semana! Beijus, Luma

Dona Minhoca disse...

Sempre gostei dessas coisas, elas têm cara de "caça ao tesouro".

Maria Augusta disse...

Luma, tua familia tem bom gosto! Beijos.

D. Minhoca, benvinda de volta. Verdade, faltava esta expressão para descrever a sensação de "chiner" na brocante. Beijos.

Osc@r Luiz disse...

Em Porto Alegre, tem a feira do "Brick"...
Uma feira ao ar livre em que aparece de tudo e tudo vale como moeda. Acha-se coisas interessantíssimas. Todos os sábados pela manhã, quando estou em Porto Alegre, visito essa feira. Mesmo que seja apenas pra tomar um chimarrão e passear... ouvir as pessoas conversando... mas não me lembro da última vez que visitei a feira e saí com as mãos abanando.
Ela acontece na lateral do parque da Redenção, em frente à Academia que formou alguns dos Presidentes do Brasil. Se for a POA, vale a visita. Certamente vale.
Beijo!

Teresa disse...

Ah, eu tb demorei para entender as brocantes! Mas agora eu até gosto, embora ainda compre pouco. Gosto de passear, olhar, perguntar preço, a origem de uma ou outra peça...

Maria Augusta disse...

Oscar, a dica está anotada, obrigada. Um abraço.

Teresa, e aí em Paris tem também o Marché aux Puces, que é a brocante mais importante de todas. Beijão.

To me achando disse...

Nunca comprei nada numa brocante, mas adoro ver todos aqueles objetos antigos e perceber como a estética mudou, como os gostos mudaram. Fora issom , uma amiga minha comprava varias velharias e restaurava com novas pinturas. Sempre invejei, mas nunca segui o exemplo dela. Fica pra próxima ; )

Anônimo disse...

Olá!
Sou amante desses feiras (blocantes), e estou planejando ir a europa.
Alguém sabe me dizer onde se encontram os melhores de lá?
O de paris fica onde? Dizem que há também na alemanha, espanha, itália e holanda.

Existe o de montevidéo no uruguay que é gigantesco. É só perguntar para qualquer um onde ficao mercado da pulga aos domingos.

abraços a todos!