terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A Dança de Shiva


Este post faz parte da blogagem coletiva "O Livro da Minha Vida" organizada pela Vanessa do blog Fio de Ariadne.

Este livro talvez não tenha sido o livro da minha vida, mas certamente foi um dos mais fascinantes que li, um dos poucos livros não técnicos que atravessaram o oceano e me acompanharam quando vim morar aqui. Pela primeira vez encontrei algo que propunha uma ponte entre duas coisas aparentemente antagônicas, a ciência e a religião. Trata-se de "O Tao da Física" de Fritjof Capra.

Ele não é muito fácil de ler, na primeira parte da uma visão geral das religiões orientais (hinduismo, budismo, taoismo), e em seguida explica os princípios da fiísica quântica. Mas o mais interessante são sem dúvida os "paralelos":

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  • no caso do hinduismo, a dança de Shiva(vídeo) que traduz o fluxo e o refluxo, a criação e a destruição, é assimilada ao mundo das partículas sub-atômicas (imagem acima), no qual existe um ritmo e um movimento contínuo e perpétuo. Ele escreve :

"As idéias de ritmo e de dança vem-nos naturalmente há memória quando procuramos imaginar o fluxo de energia que percorre os padrões que constituem o mundo das partículas. A física moderna mostrou-nos que o movimento e o ritmo são propriedades essenciais da matéria e que toda matéria, quer aqui na terra, quer no espaço sideral, está envolvida numa contínua dança cósmica. Os místicos orientais tem uma visão dinâmica do universo, semelhante a da física moderna; consequentemente, não é de surpreender que também eles tenham usado a imagem da dança para comunicar a intuição que tinham da natureza."

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  • no caso do taoismo com o yin e do yang, ele assimilou estes dois aspectos ao carater dual da matéria, ou seja, onda/energia, que foi proposto pela Física Quântica. Segundo ele, Niels Bohr, o grande cientista que propôs este modelo de complementaridade e o estendeu a vários domínios, reconhecia que o yin e o yang seriam expressões deste princípio, pois os adotou como símbolo no seu brasão.

Outros pontos que ele discute neste livro são a interdependência entre os fenômenos do universo, a participação do observador na "realidade" que o circunda, que são compartilhados pela física moderna e pelos preceitos destas religiões ancestrais.

Como sempre procuro os pontos de convergência entre as várias culturas, adorei este livro. As analogias que ele apresenta podem ser contestadas por alguns, mas para mim a idéia de que por caminhos tão diferentes e em épocas tão distantes se chegue às mesmas conclusões me fascina completamente.

Veja extratos do livro aqui

Update (26/02/2009)

A Marialynce do excelente Polia's blog acrescentou este importante complemento a este post :

...Há uns tempos li um romance de um autor português chamado "A fórmula de Deus" onde, a propósito de um pretenso segredo sobre a criação do universo deixado por Einstein, o autor faz várias referências às analogias entre as descobertas da física de partículas e os conhecimentos do budismo e hinduísmo, baseando-se, entre outros, no livro de Fritjof Capra que referiu. Deixo aqui alguns extractos:

"A mitologia hindu assenta na história da criação do mundo através da dança de Shiva, o senhor da dança.Conta a lenda que a matéria se encontrava inerte até que, na noite do Brahman, Shiva iniciou a sua dança num anel de fogo. Nesse instante também a matéria começou a pulsar ao ritmo de Shiva, cujo bailar transformou a vida num grande processo cíclico de criação e destruição...
(...)O universo balança entre o yin e o yan, as duas faces que pautam o ritmo dos padrões cíclicos do movimento e através dos quais o Tao se manifesta.
(...)E o que é o real infinitamente complexo e inatingível descrito pela Teoria do Caos senão Tao?
(...)lembrem-se agora da física quântica: a matéria é, ao mesmo tempo, onda e partícula.Então lembrem-se agora das teorias da Relatividade: o espaço e o tempo estão ligados. Tudo é yin e yang. Os extremos revelam-se, afinal, diferentes expressões de uma mesma unidade. Yin e Yang. Energia e massa. Ondas e partículas. Espaço e tempo.
(...) Então vejam o ritmo dos electrões em torno dos núcleos, veja o ritmo das oscilações dos átomos, vejam o ritmo do movimento das moléculas, vejam o ritmo do movimento dos planetas, vejam o ritmo a que pulsa o cosmos.(...)O que é isto senão o ritmo enigmático da música universal a que dança o cósmico Shiva? (...) E de onde vem esse ritmo?...Vem da Dharmakaya, vem da essência do universo....Pois a música do universo oscila ao ritmo das leis da física.
(...)A variedade das coisas e acontecimentos que vemos e sentimos à nossa volta são diferentes manifestações da mesma realidade. O real é o uno do qual deriva o múltiplo. É isso Brahman, é isso Dharmakaya, é isso Tao. Os textos sagrados explicam o universo....Está escrito na Prajnaparamita, o poema de Buda sobre a essência de tudo.

Vazia e calma e livre de si
É a natureza das coisas.
Nenhum ser individual
Na realidade existe.

Não há fim nem princípio,
Nem meio.
Tudo é ilusão,
Como numa visão ou num sonho.

Todos os seres do mundo
Estão para além do mundo das palavras.
A sua natureza última, pura e verdadeira,
É como a infinidade do espaço."


Obrigada, Marialynce!

24 comentários:

Eduardo P.L disse...

Eu precisaria ler mais sobre isso, mas confesso que tenho muita dificuldade em tratar dos assuntos religiosos e suas implicações cientificas! Uma deficiência que apesar de me esforçar não tenho progredido.

Vanessa disse...

Olá, muito obrigada por participar da coletiva. Já ouvi muito falar deste livro e o tema em fascina. Tá na minha lista!

abraço

luzdeluma disse...

Jesuixxxx Maria Cristina!! Um livro tão compicadim para explicar algo divino. Adorei o video! Fiquei deslumbrada com a finalização. Beijus

Georgia disse...

Maria Augusta, uma vez você já comentou sobre este livro aqui se nao me engano.

O video é belíssimo. É de uma sincronia estupenda.

De acordo com as escrituras Védicas, SHIVA é o símbolo máximo da potência masculina. Em seu planeta, a montanha KAILASA, existem apenas entes femininos, e quem quer que pise na terra dele, imediatamente se transforma em mulher.

SHIVA, possui um terceiro olho que sempre permanece fechado, pois no momento em que abri-lo, toda a criação será incinerada pelo calor abrasivo do fogo da renovação. Dizem os orientais que SHIVA protege a casa dos seus seguidores de todos os tipos de males.

Acredito que o livro deva ser super interessante até mesmo porque escrever pontos de vista sobre religiao requer um certo cuidado. O que eu acho que este livro deve ter um nível muito bom.

Um beijao

Janaina Amado disse...

Oi, Maria Augusta, passei aqui pra conhecer o seu livro preferido. Também gosto muito de "O Tao da Física" aprendi muito com ele, me ajudou a adquirir uma nova postura na vida. A blogagem coletiva está um sucesso!

Meire disse...

Oi Maria Augusta, nao li, jah li muito a respeito mas nao li.
Creio que realmente seja muito complexo, nao sei se gostaria de ler.
Um beijo

Meire

sonia a. mascaro disse...

Maria Augusta,
Gostei de conhecer o seu livro marcante. Muito bonito o vídeo. Já ficou um lugar comum eu dizer que seus posts são sempre excelentes! (risos)

Do Fritjof Capra já li Sabedoria Incomum, que achei muito interessante.
Bjs.

PS: Estou participando desta coletiva no blog Leituras, mas não consegui deixar um comentário no blog da Vanessa.

sonia a. mascaro disse...

Maria Augusta, eu aposto que você vai adorar o Quarteto de Alexandria. A história é fascinante e o texto dele é brilhante! Se você der uma olhada no meu banner, você vai vê-los na foto de parte da minha estante.

Aqui o link da Livraria Saraiva, onde você encontra o Quarteto da Ed. Ulisseia. Na Livraria Cultura você encontra editado pela Ediouro. Mas sugiro da Ulisseia caso você vá lê-lo em Português, pois a tradução é ótima.

Vi para você em francês na Amazon.

Encontrei também na Livrenpoche.

Bjs.

J. Neto disse...

Eu acho que vou precisar de umas férias para ler esse livro :)
Mas saiba que, para mim, é muito importante obter mais e novos conhecimentos.

Parabéns. Sua indicação de livro foi para meus favoritos em uma próxima leitura.

Abraços e parabéns também pelo conteudo do seu blog. Muito bom.

acqua disse...

Boa tarde Maria Augusta, tudo bem com vc? Espero que sim...
Eu adorei, não conheço, mas já fui atrás assim que li. Adoro esses livros que misturam culturas e nos permitem um novo olhar por nós mesmos de certa forma.
Grazie. Abraços daqui...

Adelino disse...

Maria Augusta, gostei do Dança da Shiva, mas como não li o livro limitei-me a ficar apenas apreciando as lindas imagens.
Um grande abraço.

Maria Augusta disse...

Eduardo, acho que a religião e a ciência são caminhos diferentes para encontrar respostas. Não é indispensável cruzá-los, eu acredito, mas é interessante quando isto acontece.
Um abraço.

Vanessa, parabéns pelo sucesso da coletiva, o tema é muito bom.
Beijos.

Luma, as religiões orientais vêem a divindade de uma forma diferente da nossa, que permite estas analogias, que não deixam de ser especulações, embora fascinantes.
Um beijo grande.

Georgia, o livro é muito bom, o autor é um físico renomado que trabalhava numa universidade americana, ele apresenta suas teorias sem julgamento de valores, o que é delicado quando se trata de religiões.
Um beijão.

Janaina, realmente este livro traz muitas explicações sobre as religiões orientais e sobre a física quântica, é quase didático.
Obrigada pela visita e um beijo.

Maria Augusta disse...

Meire, ele tem uma parte "técnica", para quem não gosta realmente não é fácil de ler.
Um beijão.

Sonia, ele escreveu muitos outros, atualmente um sobre Leonardo da Vinci e a ecologia, que é o ramo ao qual se dedica atualmente. Ele esteve no Brasil recentemente, há dois ou três meses, deu várias conferências e entrevistas.
Obrigada pelas preciosas informações sobre onde obter "O Quator de Alexandria".
Um grande beijo.

J. Neto, obrigada pela visita e pelo comentário, volte sempre.
Um abraço.

Lunna, que bom que você gostou, depois que o ler me conte o que você achou.
Um beijão.

Adelino, este balé está muito bonito mesmo, é verdade.
Um abração.

disse...

Maria Augusta....tão interessante como sempre.Minha filha que é terapeuta ayurvédica hinduista tem loucura por este livro...Coincidentemente já me pediu para lê-lo em diverssas ocasiões..Quem sabe agora no carnaval.òtima dica...e o video lindo demais...bjs

Funcionária do Mês disse...

Quero ler este livro! Obrigada pela dica!

sonia a. mascaro disse...

Muito obrigada Maria Augusta por ter colocado o
Leituras na sua lista de links Eu Recomendo.
Bjs.

Allan Robert P. J. disse...

Maria Augusta,

Adorei o vídeo. Anotei o nome do livro para ler 'um dia'. Confesso estar numa fase em que não consigo concentrar-me, mas sei que isso passa. Ultimamente só penso em abobrinhas! :)

Cristiane Marino disse...

Olá!!!

Adorei o vídeo.

Nunca li o livro mas, anotei a dica.

Um grande abraço
Cris

Meire disse...

Bom dia querida!

Georgia disse...

Bom dia Maria Augusta!!!

Boa quinta prá vocês!!!

Beijao

Maria Augusta disse...

Vi, realmente é uma leitura que vale a pena, embora tenha uma parte meio "técnica" que pode não agradar. Mas as comparações são espantosas.
Um beijão.

Funcionária do Mês, obrigada pela visita e pelo comentário.
Um abraço.

Sonia, é muito normal, eu recomendo enfaticamente teu novo blog.
Um grande beijo.

Allan, você tem razão em se concentrar nas abobrinhas, elas parecem deliciosas, vou experimentar a receita.
Um abração.

Cristiane, essa "Dança de Shiva" está muito bonita mesmo. Obrigada pela visita e pelo comentário.
Abraços.

Meire, Georgia, uma linda semana para vocês.
Beijos.

marialynce disse...

Um post muuuuito interessante mesmo. Embora a minha formação nada tenha a ver com a ciência há certos assuntos que me fascinam como estas analogias que apresentou no post. Há uns tempos li um romance de um autor português chamado "A fórmula de Deus" onde, a propósito de um pretenso segredo sobre a criação do universo deixado por Einstein, o autor faz várias referências às analogias entre as descobertas da física de partículas e os conhecimentos do budismo e hinduísmo, baseando-se, entre outros, no livro de Fritjof Capra que referiu. Deixo aqui alguns extractos:

"A mitologia hindu assenta na história da criação do mundo através da dança de Shiva, o senhor da dança.Conta a lenda que a matéria se encontrava inerte até que, na noite do Brahman, Shiva iniciou a sua dança num anel de fogo. Nesse instante também a matéria começou a pulsar ao ritmo de Shiva, cujo bailar transformou a vida num grande processo cíclico de criação e destruição...
(...)O universo balança entre o yin e o yan, as duas faces que pautam o ritmo dos padrões cíclicos do movimento e através dos quais o Tao se manifesta.
(...)E o que é o real infinitamente complexo e inatingível descrito pela Teoria do Caos senão Tao?
(...)lembrem-se agora da física quântica: a matéria é, ao mesmo tempo, onda e partícula.Então lembrem-se agora das teorias da Relatividade: o espaço e o tempo estão ligados. Tudo é yin e yang. Os extremos revelam-se, afinal, diferentes expressões de uma mesma unidade. Yin e Yang. Energia e massa. Ondas e partículas. Espaço e tempo.
(...) Então vejam o ritmo dos electrões em torno dos núcleos, veja o ritmo das oscilações dos átomos, vejam o ritmo do movimento das moléculas, vejam o ritmo do movimento dos planetas, vejam o ritmo a que pulsa o cosmos.(...)O que é isto senão o ritmo enigmático da música universal a que dança o cósmico Shiva? (...) E de onde vem esse ritmo?...Vem da Dharmakaya, vem da essência do universo....Pois a música do universo oscila ao ritmo das leis da física.
(...)A variedade das coisas e acontecimentos que vemos e sentimos à nossa volta são diferentes manifestações da mesma realidade. O real é o uno do qual deriva o múltiplo. É isso Brahman, é isso Dharmakaya, é isso Tao. Os textos sagrados explicam o universo....Está escrito na Prajnaparamita, o poema de Buda sobre a essência de tudo.

Vazia e calma e livre de si
É a natureza das coisas.
Nenhum ser individual
Na realidade existe.

Não há fim nem princípio,
Nem meio.
Tudo é ilusão,
Como numa visão ou num sonho.

Todos os seres do mundo
Estão para além do mundo das palavras.
A sua natureza última, pura e verdadeira,
É como a infinidade do espaço."

Beijos (e desculpe se me alonguei demasiado...)

Maria Augusta disse...

Marialynce, obrigada pelo precioso comentário, ele já foi incorporado ao post.
Um grande beijo.

marialynce disse...

Obrigada eu, Maria Augusta, pela consideração!
O seu post já estava muito bom!
Beijos!