sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sopa de Letras?


"A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada."

Luci é uma deficiente visual, ela não pode ler as palavras desta linda poesia de Cecília Meireles... e Joana não pode lê-las também, para ela estes símbolos são como para nós uma sopa de letras...Ela é deficiente visual? Não, Joana é analfabeta.

"Cuidado, perigo de morte, não toque nos fios!" Maria passa diante deste cartaz todos os dias com suas crianças, sem explicar a elas que é perigoso. Porque, ela é inconsciente? Ela é estrangeira, não entende a língua deste país? Não, ela é analfabeta.

João, quando precisa preencher um formulário,o leva sempre para casa para que seu filho o faça para ele. Já perdeu muitas oportunidades de emprego por não ser capaz de preenchê-lo sozinho. Nunca vai à reunião dos pais na escola de seus filhos, pois tem medo de que alguém peça a ele para ler ou escrever alguma coisa. Ele é analfabeto.

Como vemos nestes exemplos o analfabetismo é um fator de exclusão, prejudica a vida familiar, a vida profissional, a vida de cidadão, gera o isolamento, a perda da auto-confiança e bloqueia as possibilidades de autonomia e de melhoria de vida para muita gente. E ele pode se apresentar em vários graus :

- consegue-se decifrar as palavras, mas não se consegue entender o sentido da frase formada por elas,


- não se consegue fazer uma ligação entre as partes de um texto,


- perde-se o sentido de um texto quando o vocabulário é mais complexo


- não se consegue preencher um formulário, mesmo simples


- não se consegue entender instruções escritas.



Photobucket

Não importa qual seja o grau apresentado, é um mal que pode e deve ser combatido. Naturalmente, o meio mais radical para acabar com o analfabetismo é enviar todas as crianças à escola. No entanto, ele deve ser atacado em todas as idades e qualquer pessoa que saiba ler e escrever pode ensinar uma outra e rasgar este véu que a impede de viver a vida com mais plenitude.

Uma grande barreira no entanto, são os próprios analfabetos. Estes, por vergonha e medo do preconceito, empregam subterfúgios para esconder sua deficiência, impedindo assim a ajuda até dos mais próximos. Acredito que a luta para combater o analfabetismo deve começar por aí, e para consegui-lo alguns argumentos para convencê-los seriam :

- o analfabetismo não é um mal que toca somente os países pobres (ver mapa acima), na França por exemplo, que possui um sistema de educação com o maior número de horas de aulas no mundo, 10 milhões de indivíduos são considerados analfabetos ou iletrados, mesmo tendo passado por ele.


- um analfabeto pode ser uma pessoa que possui uma experiência empírica valiosa. No entanto, para que ela seja reconhecida e melhorada, e se torne uma alavanca para abrir novas fronteiras na vida pessoal e profissional, aprender a ler a escrever e a contar é indispensável.


- não é degradante para ninguém assumir suas dificuldades e pedir ajuda aos outros no sentido de superá-las, em qualquer situação e em qualquer idade.


Aí entra a outra parte do problema, pedir ajuda a quem?

- No Brasil antigamente havia o Mobral, atualmente devem existir outras instituições destinadas à alfabetização de adultos.

- as empresas que possuem empregados nestas condições poderiam dedicar algumas horas depois do expediente e destacar alguém para alfabetizá-los

- as cooperativas, que reúnem grupos de produtores no campo deveriam se organizar também para alfabetizar jovens e adultos carentes das redondezas.

- cada um de nós, conhecendo alguém que não saiba ler ou escrever, deveria dedicar um pouco de seu tempo para alfabetizá-lo.

O analfabetismo é uma das epidemias decorrentes da pobreza, mas que pode ser extirpado apesar dela. Sim, pois não está em nosso poder acabar com a pobreza no mundo de modo imediato, mas podemos acabar com o analfabetismo pelo menos das pessoas que nos cercam, com a nossa boa vontade. Portanto, descruze os braços e alfabetize alguém que precise aí perto de você. Já pensou a alegria que você vai sentir ajudando esta pessoa a sair das malhas da ignorância?

Este post faz parte da blogagem coletiva "A Blogosfera contra o Analfabetismo", organizada pela Georgia e pela Meire.


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22 comentários:

Aninha Pontes disse...

MAria Augusta meu bem, parabéns pelo post.
É assim simples. Se olharmos ao nosso redor, vamos ver tanta e tantas pessoas precisando de nossa ajuda, de nosso discernimento, de poder dizer à eles, que eles podem, que eles devem saber ler e escrever.
Muitas vezes as pessoas mais próximas de nós, é quem mais precisa de ajuda neste sentido. E custa pouco, basta que façamos nossa parte, sem nos preocupar em resolver o problema do país, mas o problema à nossa volta.
Já estaremos ajudando, e muito.
Beijos querida.

Eduardo P.L. disse...

Maria Augusta,

hoje sou eu quem chega primeiro, e para ROUBAR um parágrafo do seu magnifico texto, para dele fazer o post do Drops.
Li várias postagens que estão participando, e a que mais me tocou foi a sua. Daí, a escolha!

Me perdoe!

Abçs!

Suelly Marquêz disse...

Maria Augusta, excelente post, eu tambem concluo que muitas vezes quem faz o pri]orpio apartheit é o analfabeto, ele roprio se exclui, na vergonha , e isto faz dele proprio seu casulo, e se torna uma vitima do social que nao retira os fios que ele se envolve, pra desmitificar a alfabetizaçao, pois não existe misterio quando feita com criterios morais e eticos que não firam a sensibilidade daquele que fica no anonimo,
obrigado, aprendi muito na sua blogagem, sempre aprendendo!
suelly marquêz
http://aniscomcanela.blogspot.com.
Uberlandia mg
Brasil

Sonia A. Mascaro disse...

Muito importante este seu post, Maria Augusta! Chega a ser difícil para aqueles que são alfabetizados se colocarem no lugar daquele que é analfabeto. Quanta limitação precisar perguntar para o outro qual é o ônibus que está parando no ponto, não poder ler uma placa de rua, só ver figuras numa revista ... Isso para falar apenas da ponta do iceberg ... Eu alfabetizei duas moças que trabalharam aqui em casa e uma das coisas que mais me comoveu na época foi uma delas me dizer que uma de suas alegrias foi poder votar sem ter que imprimir o dedo borrado de tinta no papel!
Parabéns pela excelente postagem!
Beijos!

Sonia A. Mascaro disse...

Me esqueci de elogiar a bela ilustração e a poesia de Cecília Meireles!
Beijos!

Georgia disse...

Maria Augusta, que texto belíssimo esse seu. Tocou nos pontos com muita sabedoria. Comecou com uma poesia singular da Cecília e colocaou passos do dia a dia das pessoas que têm que enfrentar o monstro do nao saber ler.
Você escreveu com muita propriedade que a primeira pessoa a querer tem que ser mesmo o que nao é alfabetizado.

Querida, te desejo um ótimo dia e muito obrigada por sua participacao.

Beijao

Isabel-F. disse...

5 estrelas o teu post nessa blogagem colectiva contra o analfabetismo ...

gostei imenso e dou-te os meus parabéns ...

realmente, ser-se anafalbeto é quase como se ser cego ...

beijinhos

nina disse...

Muitas vezes o adulto analfabeto tem até vontade, mas os projetos são muito lentos e escassos, uma vez por semana, por exemplo (pelo menos o que pude ver na cidade que morei). Vi que muitos iam com grande sede de aprender, apesar de que outros riam nas suas costas (provavelmente com a mesmma vontade de ir mas sem a mesma coragem de encarar o novo).
Enfim.
Como vc falou mt bem, esse é um mal que precisa ser extinto, já que marginaliza tanto e mantém fora das grandes descobertas que só a leitura pode oferecer.
Bjs

disse...

Nada poderia acrescentar além do que já foi dito tão lindamente por Eduardo, Isabel, Sonia e Aninha...mas não resisto...ESPETÁCULAR...dos melhores textos e imagens que vi até agora em qualquer das blogagens coletivas de hoje ou de sempre...Parabéns minha amiga...comovente.
Beijos

Meire disse...

Guta, super interessante teu post.
Uma pessoa analfabeta é uma pessoa cega.
Eu gosteia muito de ser voluntaria alfabetizando adultos, acho que me faria muito bem, ver alguem sair da cegueira literaria.
Obrigada pela participaçao.
Um beijo
Meire

Adri /Dri /Drika disse...

Bom dia, estou visitando os blogs que estão confirmados na blogagem contra o analfabetismo... Parabéns pelo seu post e por abraçar a causa...Bju ;)

Bárbara M.P. disse...

Olá,

Parabéns pela sua participação na campanha e pelo texto tão bem escrito!

Abraço,
Bárbara M.P.

Denise BC disse...

Maria Augusta
Ótima abordagem, também penso que a forma mais rápida e sincera é ajudando ao próximo que tanta precisa.
Ás vezes com muito pouco podemos oferecer condições a uma pessoa à ter uma vida melhor e mais justa.
Eu bloguei sobre o analfabetismo das pessoas deficientes, pois desenvolvo material didático adaptado, feito em grande parte com materiais reciclados e sucatas, e repasso para as famílias e professores interessados o passo-a-passo para executar esse material para suas crianças.
bjs,
Denise BC

Luma disse...

Concordo que o analfabetismo é uma epidemia decorrente da pobreza. Vemos familias inteiras de analfabetos que os pais não deixam os filhos irem à escola para não deixarem de trabalhar. Um vez, a muito tempo, vi um "capiau" dizer que estudar deixava o corpo mole e preguiçoso, que não combinava com a lida da terra. Mas eles não tiveram exemplos! Por isso acredito tanto nos exemplos. Beijus

Adelino disse...

Maria Augusta, impressionante a nossa identidade de pensamento neste post da coletiva.
Alfabetizar alguém que esteja perto de nós, na convivência diária, e que realmente queira aprender as primeiras letras, os primeiros algarismos, já um passo muito importante. É a arrancada inicial, um "empurrão" eu diria, cabendo àquele a quem ensinamos prosseguir aprendendo de acordo com a sua vontade. Por isso a importância da alfabetização, ainda que apenas ensinando a ler, escrever e contar. A curiosidade de aprender mais coisas, dependerá da pessoa alfabetizada.
No Brasil houve um movimento muito importante que se chamou MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), infelizmente boicotado e ridicularizado por aqueles que combatiam e combatem pessoas e não idéias. Esses mesmos que combatiam um movimento de alfabetização, hoje ganham milhões de reais de indenização, dinheiro que poderia ser empregado em programas educacionais populares.
Grande abraço.

Diz disse...

Belo post como sempre- vc capricha, é legal isto.
É triste tudo isto.
Obrigada pelos comments tão gentis lá. Bjs Laura

Maria Augusta disse...

Amigos, obrigada a todos pelos comentários. Acredito que se aliado ao nosso esforço pessoal se conjugar o empenho governamental em fornecer condições para um ensino de qualidade nas escolas e estruturas para ensinar os adultos que não tiveram acesso a elas, nossa população sairá da precariedade na qual uma boa parte se encontra e nosso país ocupará o lugar que merece entre as grandes nações do mundo.
E parabéns à Georgia e à Meire pelo sucesso desta coletiva.
Beijos e bom fim de semana.

Allan Robert P. J. disse...

Maria Augusta,

Você apresentou algumas soluções para acabar com o analfabetismo que funcionam. O que falta, muitas vezes, é a vontade de colocá-las em prática.

Anny disse...

Amei seu post. Perfeito. Parabéns!

Só- Poesias e outros itens disse...

Maria Augusta
O que dizer de tão cuidadosa postagem. Admiro a sua dedicação a um tema tão fundamental para os nossos dias.
Parabéns!!!

JU Gioli

Lunna Montez'zinny disse...

Sabe? Quanto mais leio sobre a questão, mais e mais me permito indagar sobre o assunto - não tenho respostas e acho que infelizmente é algo ligado a cada um de nós. É como aquele caminho que você sabe que pode seguir, mas exita.
Pedir ajuda talvez nem seja o caso, mas seja parte da vontade de conseguir algo. Não sei mesmo Maria Augusta. Nem sempre os maiores interessados estão focados porque seus objetivos são outros.
Abraços meus e bom fim de semana...

evipensieri disse...

Gostei muito do seu post.

Uma pessoa analfabeta fica excluída socialmente.

Elvira