quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

1808



RETRATO EQÜESTRE DE DOM JOÃO VI - Domingos Antonio de Sequeira
óleo sobre tela (cerca de 1821) - Museu Imperial

Quando estive no Brasil no ano passado, fiquei impressionada com a quantidade de livros que saiam relativos à chegada da família real ao Brasil. Demorou um pouco, mas caíu a ficha : agora em 2008 comemora-se o segundo centenário deste acontecimento, que tanto marcou nossa história.

E para me lançar no clima do acontecimento, ganhei de presente de uma amiga o livro "1808", de Laurentino Gomes, que descreve como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. Exagero, idéias estereotipadas? Aparentemente não, todas as fontes citadas parecem sérias (a maioria anglo-saxônicas) e a pesquisa realizada vasta e rigorosa.

Chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro em 7 de Março de 1808
Geoffrey Hunt 1999, Óleo sobre tela, 609 x 914 milímetros - Colecção particular

A leitura é saborosa : nela, fiquei sabendo que na época da partida de Lisboa, d. João ainda não era rei, mas príncipe regente (a rainha era sua mãe, d. Maria, a Louca, aquela que mandou enforcar Tiradentes) e que ele jogou de modo sutil entre a França e a Inglaterra, as duas potências da época, de tal modo que até o último minuto mesmo a frota inglesa que deveria escoltá-lo até o Brasil não sabia se ele desejava mesmo fugir ou se aliar a Napoleão. Este, indagado sobre d. João nos seus últimos dias de vida, disse : "Foi o único que me enganou!"

O autor narra também as condições difíceis da travessia, onde os navios superlotados enfrentaram calmarias e tempestades e tiveram que se desviar do plano inicial da viagem. Explica que d. João e sua mulher Carlota Joaquina (ela teria conspirado contra o marido várias vezes) viviam separados, e que ele se "aliviava" com o camareiro real. Além disto, "não tomava banho, era feio e repulsivo". Narra também os gastos com as festas suntuosas, como a da sua coroação como d. João VI e a da chegada da princesa Leopoldina, esposa de d. Pedro I (coitada, não sabia o que a esperava).

Mas a vinda dele para o Brasil foi determinante para a independência brasileira e sua existência como nação, com a abertura dos portos brasileiros às nações amigas e a elevação da colônia a Reino Unido. Ele também deu liberdade à indústria manufatureira do Brasil, abriu estradas e criou escolas e faculdades, trazendo a "Missão Francesa" com a incumbência de incentivar as artes e ciências no país. Quando foi obrigado pela corte portuguesa a voltar à Lisboa, deixando aqui seu filho e herdeiro d. Pedro, tudo estava encaminhado para a independência do nosso país.


Cena Urbana

Esta obra de Henry Chamberlain, pintor amador inglês, nos mostra dois dispositivos de transporte utilizados no Rio de Janeiro na época de D. João VI. Em primeiro plano, vemos uma "canga", dispositivo composto por varas e cordas, sendo usado por escravos para transportar um grande barril. Ao fundo, vemos um "piolho", um pequeno carro empregado para o transporte de caixas, levando igualmente um barril.



Curiosidade

Há alguns anos encontrei numa "Feira de Cartões Postais" aqui em Nancy um cartão reproduzindo uma nota de 50 reais comemorativa do primeiro centenário da abertura dos portos brasileiros às nações amigas (abaixo). Ele mostra os governantes português e brasileiro da época, d. Carlos I e Afonso Penna. No verso do cartão observa-se que ele foi enviado de Pernambuco em outubro de 1908 à uma mademoiselle com sobrenome francês que vivia em Buenos Aires. Quem diria que um século depois ele estaria nas mãos de uma brasileira?



19 comentários:

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Oi Maria Augusta

Nojento esse D. João, já havia lido sobre seus hábitos higiênicos! Argh!
Quer ver comida boa me visite!
Abraço!

Eduardo P.L. disse...

Maria Augusta,

é verdade. Comemorações à parte, aqui se fala pouco sobre família reais...
Lula domina o notíciario.

Parabéns pelo NOVO modelo do blog. Gostei.
ANO NOVO, CARA NOVA!

Abçs

Vi Leardi disse...

Minha querida, lindas as mudanças ,e o post...sempre fui uma apaixonada por história....este por coincidência é o meu livro do momento....estou adorando...Se puder não deixe de ler "As Barbas do Imperador",D.Pedro II um monarca nos trópicos, de Lilia Moritz Schwarcz,da Companhia Das Letras.....relato maravilhoso da vida deste que foi a nossa maior figura do Império...além de leitura saborosa ,fantástica fonte,ilustrada de pesquisa...
Que 2008 te tragam realizados todos os seus "sonhos" que nos "vejamos" muito......Grande beijo...

Meire disse...

Querida, em primeiro lugar, Feliz 2008, cheio de paz saude e sucesso.
Em segundo lugar, teu template esta divino! Adorei.
Eu tb tenho lido muito sobre a façanha da familia real. Que super achado este postal amiga!

Um beijo

Meire

Betho disse...

Oi Guta, que belo presente vc ganhou, sim esse ano a comemoração é grande em torno da família real e nós brasileiros estamos meio de pinguas cheio de tanta "família Real, teve noticiário que fez série, falando diáriamente, sobre o assunto, mas isso é Brasil.abçs

Diz disse...

Querida, obrigada pelo carinho. Qto à nossa história acho que fomos tão enganados, os livros mentiam tanto que nem havia interesse em ler, só mentirada! agora vem à tona a história de verdade.
Os livros de Eduardo bueno tb são deliciosos. Conhece?
bjs Laura

ivan lima disse...

muito interessantes essas colocações de fatos históricos do nosso país. parabéns e continue.

Maria Augusta disse...

Santilli, pois é, na época acho que os hábitos higiênicos deixavam a desejar, mesmo sendo um rei. Quanto à tua receita vou experimentar, as fotos dão água na boca. Abraço.

Eduardo, é normal que a atualidade ocupe mais espaço que a história, mas como a primeira é conseqüência da segunda, é sempre bom lembrar para entender.Que bom que você gostou do template novo, na verdade ainda preciso personalizá-lo, pois ele foi colocado exatamente como o achei no FinalSense. Um abraço.

Vi, obrigada pelas dicas, vou colocar na minha listinha, também gosto de história. Também espero que em 2008 nos "visitemos" bastante, é sempre um prazer ir ver as coisas boas e bonitas no teu "Pedras e Cores". Um beijo.

Meire, fico contente porque você gostou do template, queria um com fundo branco como o antigo mas com mais espaço. Achei este prontinho no site do FinalSense, e o tema combinava com o título do blog, uma sorte. Um beijo.

Maria Augusta disse...

Betho, acho que os brasileiros estão redescobrindo a história sob outros ângulos, acho positivo, mas claro que não deve encobrir os problemas atuais. Abraço.

Laura, realmente a versão dos livros de história são arranjadas segundo os interesses dos "vencedores". Mas com o tempo outras versões surgem e a verdade, às vezes, aparece. Beijo.

Ivan, obrigada pela visita e pelo comentário, volte sempre.

Aninha Pontes disse...

Maria Augusta, como tod a história que nos foi contada na escola, esta tambémn fou mentirosa.
Neste final de semana que passou, estive na livraria cultura e fenac, e o número de volumes deste livro 1808, é muito grande.
Há mesmo uma grande divulgação dele.
E a gente aqui sempre aprendendo.
Um beijo

apoiofraterno disse...

Maria Augusta, esse seu post está super bem escrito e muito agradável de ser lido. Fiquei com vontade de ler mais sobre o assunto. Muito obrigado por repartir esta leitura e conhecimento com os seus leitores.

Maria Augusta disse...

Aninha, parece que os livros que contam a historia "reescrita" estão começando a fazer sucesso no Brasil. Porque a historia que ensinam na escola não tem nada a ver...Beijão.

Mario, parabéns pelo aniversário do Apoio Fraterno, espero que ele se repita muitas e muitas vezes.
Abração.

Vi Leardi disse...

Minha querida...volte e veja de quem são as imagens....hi, hi, hi, vc foi mais rápida do que eu.....
mil beijos...

Ale disse...

Obrigada pela visita ao meu blog. Estou tentando atualizar sempre, portanto apareça!!!
Ah! Muito interessante esse texto sobre vinda da família real.
Abraços

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Maria Augusta

Li de um historiador e concordei que a grande vantagem da vinda de D. João VI ao Brasil foi a preservação de nosso território.
Enquanto a América espanhola se pulverizava me vários territórios, que viraram essa corja de ditadorzinhos corruptos, o Brasil manteve sua unidade territorial, graças à presença da autoridade portuguesa e a vigilância exercida.
Não tivesse aqui aportado a família real e talvez tivéssemos nos divididos em meia dúzia de republiquetas do tipo das Sul Américas.
Na volta da família real, ainda tivemos um grande líder que foi D. Pedro I, que ajudou a preservar nossa unidade.
Não foi tão ruim assim a vinda do fedorento Rei!

Maria Augusta disse...

Vi, isto também já me aconteceu, o comentário veio antes do final da postagem...como tenho a vantagem do fuso horário, às vezes mudo o post de manhã, quando no Brasil ainda estão dormindo (rs). Beijo grande.

Ale, achei teu blog agradável e organizado, voltarei com prazer. Um beijo.

Santilli, verdade que foi uma façanha manter a unidade territorial brasileira. Neste livro 1808 o autor disse que durante a estada dele no Brasil houve tentativas de emancipação de algumas partes do território. Um abraço.

teresa disse...

ah, então é por isso! eu não tinha me dado conta do bicentenário... que tonta!

Adelino disse...

Maria Augusta, que coincidência!!! Ganhei como presente de Natal de minha filha este livro, o 1808. Aliás, como sempre foi um presente "dirigido", insinuado por mim... Acho que precisávamos de alguma coisa assim, bom de se ler, e desfazendo aquela imagem ridícula que a produtora/diretora de cinema Carla Camurati pintou para as figuras da família real. É claro que muitas coisas do filme eram verdadeiras, mas nem tudo, muito exagero, quase uma comédia do começo ao final.
Abraços

Karina disse...

Seus posts, como sempre, repletos de informações interessantes. :D
Pena q se aprenda tão pouco disso tudo nos tantos anos q passamos na escola.
Fico imaginando como será daqui há tantos anos, como será contada a história que estamos fazendo hoje...

Bjks carinhosas