quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A Chiffonière do Cairo

A atualidade da França nesta semana é monopolizada pelas homenagens a esta grande mulher que vem de desaparecer, menos de um mês antes de completar seu centésimo aniversário. Trata-se da Soeur Emmanuelle, que marcou o coração dos franceses graças à sua generosidade e sua ação em prol dos mais desfavorecidos.

Ela era uma religiosa, que após ter passado muitos anos ensinando, aos 63 anos resolveu partir para o Cairo e habitar nas favelas desta cidade para tentar melhorar as condições de vida dos moradores. Quando foi chamada de volta à França pela sua ordem religiosa 22 anos depois, lá onde antes só existia um lixão, no momento de sua partida havia centros de saúde, jardins da infância, oficinas, maternidades, que ela havia conseguido construir graças à sua capacidade de trabalhar e de motivar as pessoas em prol de suas obras. Mas ela não se interessou apenas pelas crianças e adolescentes do Cairo. Em 1980, fundou uma associação laica (ASMAE), para acolher pessoas de todos os credos religiosos. Em 1989, ela lançou a Operação Laranja, visando a obtenção de uma laranja por semana para cada criança pobre do Sudão, para compensar suas carências em vitaminas. Atualmente a ação de sua associação se estende por 8 países, com 85 programas na área da saúde e da educação.

Ela disse :

« A alegria se manifesta onde se vive sem eletricidade, sem lazer, mas na fraternidade, onde a relação de amor e de amizade é a própria base essencial da vida cotidiana. »


Bastante mediatizada, todos os programas de televisão adoravam recebê-la pois com seu carisma, seu humor, era um espetáculo à parte, não tinha papas na língua quando se tratava de defender sua causa : o combate à pobreza no mundo.


Condecorada pela Legião de Honra pelo presidente Chirac, merecedora de um Prêmio Nobel da Paz segundo muitos, comparada muitas vezes à Madre Teresa de Calcutá, ela será canonizada? Provavelmente não, pois ela se declarou favorável ao uso da pílula anticoncepcional vendo os casos de meninas de 12 anos grávidas que no Cairo, e também ao casamento dos padres. Tudo isto contraria os dogmas da Igreja Católica, o que pode impedir sua canonização. No entanto, ela é o último exemplo conhecido de religiosos que se consagram com tanta abnegação às causas humanitárias, que atualmente tendem a ser defendidas pelas ONGs laicas.

Ela disse :

« Não se possui a felicidade como uma aquisição definitiva. Trata-se, a cada instante, de fazer surgir uma faisca de alegria. Não se esqueça : sorri para o mundo que o mundo te sorrira.»


O trabalho dela foi utópico, ainda cabe este idealismo no mundo atual? Quando ela chegava nos programas de televisão cercada por artistas glamorosos e falava com sua franqueza habitual da miséria do mundo, um mal estar se instalava e isto incomodava as pessoas. Mas enquanto este tema incomodar nem tudo estará perdido, resta a esperança de que algo será feito para atacar o problema. Acredito que por isto, o mundo precisa e muito de outras Soeurs Emanuelles...



No vídeo acima ela explica ao jornalista que a palavra que ela prefere é "Vá em frente" e que aquela que ela detesta é "Stop".

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