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egundo a lenda, Kalidasa foi um pastor ignorante que se apaixonou por uma princesa e que, por meio de um complô, conseguiu desposá-la. Para obter o perdão, ele suplicou à deusa Kali de receber o dom da inteligência, que lhe foi concedida, e se tornou assim o mais renomado poeta e dramaturgo da literatura sânscrita, tendo inspirado Lamartine e Goëthe. Na realidade, supõe-se que ele viveu no século V da nossa era no norte da Índia e era uma das "nove pérolas" (nove sábios) do corte do rei de Ujjayini.Eu o descobri há algumas semanas, lendo a revista "Le Point", onde deparei com a crítica sobre o livro "A Nuvem Mensageira" seguida pela "As Estações" de Kalidasa. O artigo citava algumas frases do livro, fiquei encantada e pensei : "Internet, prá que te quero?" Encomendei-o imediatamente e dois dias depois ele estava nas minhas mãos : um livro fininho, sem nenhuma imagem, sempre uma página em francês acompanhada do original em sânscrito, e enormemente de anotações do tradutor, pois segundo ele, devido à diferença cultural e à época no qual foi escrito, muitos trechos precisavam de explicação. Não muito encorajador, mas comecei a ler...
Ele começa com a "A Nuvem Mensageira", um poema de 111 estrofes, no qual um Yaksa (espécie de gênio ou semi-deus), exilado nas montanhas da Índia Central longe de sua esposa, que ficou na cidade de Alaka no norte do país, vê uma nuvem que paira sobre a montanha, e a encarrega de levar notícias suas à amada. E a descrição do caminho que fará a nuvem até chegar à morada de sua esposa é repleto de poesia louvando a beleza da natureza e o prazer de usufruir desta paisagem. Lendo-o, compreendi porque não havia imagens no livro, o texto é tão expressivo que elas não são necessárias. Espero ter encontrado as palavras apropriadas na nossa língua para transmitir toda a poesia que emana desta descrição, e fazê-los viajar com esta nuvem sobre os campos, templos e palácios até os confins do Himalaia, nestes extratos que coloquei aqui...

A Nuvem Mensageira (extratos)
Kalidasa
(passe o mouse sem clicar sobre as palavras sublinhadas para conhecer o significado)
Escute agora,ô, nuvem, que eu te explico o caminho que deve ser seguido. Você prestará bastante atenção. Eu vou te dizer sobre quais cumes, você, extenuada pelo cansaço irá posar, os rios dos quais, exaurida, você beberá a água doce.
Eu posso prever, minha amiga, que apesar do teu desejo de ir depressa para encontrar minha bem-amada, você passará algum tempo sobre todas estas colinas perfumadas pelo jasmim. Acolhida pelos pavões com os olhos úmidos cujos gritos te desejam as boas vindas, decida-se a deixá-los sem mais tardar.
Quanto teu cansaço passar, continue teu caminho, regando os jardins com tuas gotas d'água fresca, os botões em cachos dos jasmins nascidos às margens do Vannadi, derramando por um instante tua sombra familiar sobre os rostos das moças que colhem as flores que enrugam e murcham, a secar o suor de suas faces, os lotus de suas orelhas.
Seria te desviar caminho que deve ser seguido em direção ao Norte; mas não deixe de visitar os palácios de Ujjayini. Seria realmente uma pena não experimentar o charme dos olhos matreiros das citadinas, assustadas ao ver cintilar tuas guirlandas de relâmpagos.
A tua chegada, les Daçarna verão os canteiros de seus jardins se esbranquiçarem de ketaka cujos botões desabrocham; os santuários de suas cidades se encherem de pássaros alimentados pelas oferendas domésticas, ocupados com a construção de seus ninhos; o reflexo azulado dos frutos maduros marcar os bosques de macieiras-rosas e os cisnes viajantes ali ficarem durante alguns dias.
Pousada sobre a colina no gracioso cume do qual te falei, reduza logo de tamanho, para chegar depressa ao tamanho de um jovem elefante; você poderá então, com um dos relâmpago pálido, bem pálido, tal qual o luar de um enxame de vagalumes, lançar um olhar no interior do palácio.A tendo despertado dum sopro que refrescam tuas gotas d'água, depois de tê-la reanimado com o perfume dos pequenos botões de jasmim, escondendo teus relâmpagos, envie a palavra grave de teu trovão a esta bela tão recatada cujos olhos se fixam sobre a janela estreita onde você se mantem.
"Nas visões do meu sono você aparece e eu estendo os braços no vazio, tentando te segurar com um abraço apaixonado. As divindades da terra, sempre, vendo esta cena não podem conter as lágrimas que, pesadas como as pérolas, descem sobre os galhos das árvores".
"Estas brisas vindas das Montanhas Nevadas fizeram se quebrar bruscamente os brotos sobre os ramos de déodars e correm em direção ao sul, perfumadas pela resina derramada. Eu abro meus braços para elas, virtuosa esposa : se pelo menos elas tivessem tocado o teu corpo!"











