Em 1997, vivi uma das maiores emoções da minha vida profissional. Apesar de estar trabalhando no Brasil na época, encontrava-me aqui na França na ocasião do congresso da SFP que comemorava o primeiro centenário da descoberta da radioatividade. Neste, que foi realizado na mítica Sorbonne, tive a oportunidade de assistir a uma conferência do prêmio Nobel de Física Gilles de Gennes e, principalmente, de visitar os laboratórios onde trabalhou Marie Curie, que descobriu juntamente com seu marido Pierre Curie e com Becquerel, a radioatividade natural.
Quando a Lunna propôs esta blogagem coletiva para falar das realizações de mulheres que marcaram sua época ou a história, pensei imediatamente nela. Pois ela foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel, e é a única mulher a ter ganhado dois, um de Física e um de Química. Foi também a primeira mulher a obter uma cátedra de ensino superior na França, sem falar nas suas realizações científicas e em seus esforços para construir o Instituto do Rádio, para tratar os doentes de câncer. E é também a única mulher que jaz no Panthéon, o mausoléu dos homens ilustres franceses.
E no entanto sua vida não foi fácil. Nascida na Polônia, filha de pais professores, que sofreram problemas financeiros decorrentes da perseguição sofrida devido ao patriotismo, numa época em que a Polônia era ocupada pelo Império Russo, ela perdeu sua mãe quando tinha apenas 10 anos de idade. Mas sempre perseverou nos estudos e com brilho, chegando mesmo a freqüentar uma faculdade itinerante clandestina, pois os estudos superiores eram proibidos às mulheres. Fez uma pausa de 5 anos nestes, para trabalhar e pagar as despesas de sua irmã, que havia partido a Paris estudar medicina. Quando esta se formou, a chamou para vir para a França, onde Marie se licenciou em Matemática e Física, começando sua carreira como pesquisadora .
Foi então que ela conheceu Pierre Curie que se tornou seu marido. Após o nascimento de sua primeira filha, ela começou um doutorado sobre os materiais urânicos, que a conduziram à descoberta da radioatividade natural. Ela realizava estas pesquisas primeiro em um depósito, em seguida em um galpão de madeira, sem o menor conforto, com equipamentos rudimentares para a época.
Marie perdeu seu marido em 1906, atropelado por um carro puxado por cavalos. Nesta ocasião, o governo francês propôs à Marie e às suas 2 filhas uma pensão alimentar. Marie a recusou, dizendo que preferia trabalhar para sustentar sua família. Mais tarde foi designada para o posto de professor na cátedra que fora ocupada por seu marido se tornando assim a primeira mulher a obter um cargo semelhante na França.
Em 1911 foi condecorada com seu segundo prêmio Nobel, desta vez de Química, por ter isolado o rádio, determinando assim seu peso atômico.
Durante a guerra ela não hesitou a partir ao "front" com seu equipamento e tendo sua filha como ajudante para tirar radiografias dos soldados feridos. Na volta, seu nome estava consagrado principalmente fora da França, e então ela partiu para os Estados Unidos para angariar fundos para a construção do Instituto do Rádio.
Marie morreu em 1934 de leucemia, resultante da exposição à radioatividade. Sua filha e seu genro continuaram suas pesquisas, e também receberam prêmios Nobel por seus trabalhos.
Eu a considero um exemplo de desprendimento, de perseverança e de coragem. Pois ela não hesitou a se sacrificar para ajudar a irmã a fazer seus estudos, nem a partir para a Guerra com sua filha. Não se deteve diante das proibições do Império Russo proibindo as mulheres de estudar, nem das condições precárias que encontrou quando começou suas pesquisas. Não se acomodou diante da pensão oferecida pelo governo.. E sempre superou o preconceito por ser pobre (na Polônia, na sua juventude), por ser estrangeira e por ser mulher, que teve de enfrentar tanto para a nominação do Prêmio Nobel quanto na ocasião de sua nominação na Sorbonne.
Graças a mulheres assim que hoje podemos trabalhar e nos realizar profissionalmente, pois elas elas provaram sua capacidade, abrindo caminho para as conquistas femininas, não contra os homens, mas ao lado deles.
Observações :
A radioatividade, assim como todas as descobertas humanas, foi usada para fins bélicos, como as terríveis bombas atômicas, ou inadequados, como o seu uso nos cosméticos. Mas ela possui também uma ampla utilização na produção de energia elétrica, na medicina, e em vários processos industriais.
Outras mulheres marcaram a história da radioatividade : Irène Joliot-Curie, filha de Marie Curie, que descobriu a radioatividade artificial. E Lise Meitner, que foi a primeira a explicar teoricamente a fissão, que permite a produção de eletricidade nas usinas nucleares...mas que ficou tristemente conhecida como "a mãe da bomba atômica".
Na época que Marie Curie viveu a mulher não tinha direito ao voto na França, isto só aconteceu em 1949...e até 1970 as mulheres casadas que quisessem trabalhar precisavam fornecer uma autorização assinada pelo marido!
Veja também :
Biografia detalhada de Marie Curie (em inglês)
Manuscrito de Marie Curie
Institut Curie
Música : Chopin (Polonaise in Flat)
Este post faz parte da blogagem coletiva proposta pela Lunna "Eu Gosto de Ser Mulher".










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A parte mais interessante a meu ver é a "Noite do Patrimônio" no sábado. Trata-se de circuitos nas ruas de um bairro, nos quais há paradas e nestas conferencistas ou artistas explicam ou mostram algo relacionado com o lugar, pode ter uma relação com a história da família que mora ali, ou com a arquitetura, ou são artesãos mostrando como eles trabalham. Ao mesmo tempo artistas se apresentam, cantanto, ou contando piadas, ou fazendo números de circo. Cada ano um bairro diferente é selecionado, em geral a prefeitura dá velinhas para que os habitantes coloquem nas janelas, uma iluminação especial nos imóveis que vão ser destacados e guias para informar as pessoas sobre os eventos.














